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Relacionamentos e Limites

Medo de Abandono nos Relacionamentos: Psicóloga Explica de Onde Vem e o Que Ajuda

Mulher abraçada a uma almofada olha o celular no sofá, imagem sobre medo de abandono

A mensagem foi lida e a resposta não veio. Em poucos minutos, você já imaginou que algo mudou, que a outra pessoa perdeu o interesse, que a relação está por um fio. Se essa angústia parece sempre maior do que a situação, talvez o que esteja em jogo seja o medo de abandono.

Para entender de onde vem esse medo e como ele aparece no dia a dia, o Vida Intencional entrevistou a psicóloga clínica Lígia Daher, que trabalha com psicanálise. Ela respondeu por escrito a quatro perguntas.

Resposta rápida: segundo a psicóloga Lígia Daher, o medo de abandono não surge só nas relações amorosas adultas: a forma de lidar com a presença e a ausência do outro vai sendo construída ao longo da história. Ele aparece em sinais sutis, como interpretar um silêncio como rejeição ou se adaptar demais às vontades do parceiro. Observar o que a ausência desperta e procurar terapia quando o sofrimento é recorrente pode ajudar.

Retrato da psicóloga Lígia Daher, sorrindo, diante de uma parede de tijolos
A psicóloga Lígia Daher (CRP 04/82172).

Sobre a entrevistada: Lígia Azevedo Daher Chaves é psicóloga clínica (CRP 04/82172), com orientação psicanalítica. Atua no atendimento a adolescentes e adultos, nas modalidades on-line e presencial, em Resende Costa (MG). Participa como cartelizante na Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), onde desenvolve estudos em torno da teoria e da clínica psicanalítica. Seu trabalho é orientado pela escuta da singularidade de cada sujeito e pelas questões que atravessam os vínculos, os afetos e o sofrimento psíquico. Site: ligiadaher.com.br · Instagram: @ligiadaherpsi

De onde vem o medo de abandono

A primeira pergunta à Lígia foi de onde costuma vir o medo de abandono nos relacionamentos. Ela começa lembrando que ele não nasce no namoro ou no casamento:

“Acho importante pensar que esse medo não surge apenas a partir das relações amorosas que vivemos na vida adulta. A nossa maneira de lidar com a presença e a ausência do outro vai sendo construída ao longo da história, a partir das experiências que tivemos com pessoas que são importantes para nós.

Quando falamos de abandono, não estamos falando apenas de alguém que foi embora concretamente. Existem experiências de ausência emocional, de insegurança nos vínculos e situações em que a pessoa não sabia muito bem o que esperar do outro. Essas experiências podem deixar marcas na maneira como ela passa a se relacionar.

Isso não significa que exista uma única causa ou que seja possível explicar o sofrimento de alguém olhando apenas para a infância. Cada pessoa tem uma história, e é importante compreender como as suas relações foram sendo construídas.

Na vida adulta, esse medo pode aparecer como uma dificuldade de confiar que o outro continuará ali, mesmo quando não está disponível o tempo todo. Uma demora para responder uma mensagem, atender uma ligação ou uma mudança de comportamento podem despertar uma angústia muito maior do que a situação, em si, parece justificar.

É como se a possibilidade de perder aquela pessoa estivesse sempre à espreita. E, a partir disso, o relacionamento passa a ser vivido também como uma tentativa de evitar que essa perda aconteça.”

A Lígia também escreveu sobre o tema no blog dela: “Medo de abandono nos relacionamentos: de onde vem”.

Medo de abandono e apego ansioso são a mesma coisa? Se você já leu sobre estilos de apego, talvez reconheça aqui algo parecido com o que a teoria do apego chama de apego ansioso. São leituras diferentes: a teoria do apego descreve padrões de vínculo, e a Lígia responde a partir da psicanálise, que olha para a história de cada pessoa. Para conhecer a outra abordagem, veja os textos sobre estilos de apego e apego ansioso.

Como o medo de abandono aparece no dia a dia da relação

Também perguntamos como o medo de abandono aparece no cotidiano de um casal e quais sinais costumam passar despercebidos. A resposta dela:

“Ele pode aparecer de maneiras bastante sutis. Às vezes, a pessoa percebe que fica angustiada quando o parceiro demora a responder uma mensagem, mas não percebe o quanto começa a imaginar cenários a partir daquele silêncio. A ausência deixa de ser apenas uma ausência e passa a ser interpretada como um sinal de desinteresse, rejeição ou de que alguma coisa está prestes a terminar.

Também pode aparecer na necessidade de receber confirmações frequentes de que é amado(a), na dificuldade de ficar bem quando o outro quer fazer alguma coisa sozinho(a) ou no hábito de observar constantemente qualquer mudança de comportamento.

Há sinais que passam despercebidos porque podem ser confundidos com cuidado. É o caso de quem evita dizer o que pensa para não provocar um conflito, aceita situações que a machucam por medo de perder o relacionamento ou se adapta excessivamente às vontades do parceiro. Como se fosse preciso se anular para fazer o outro feliz.

Nesses casos, a pessoa pode até acreditar que está fazendo tudo isso por amor. Mas vale se perguntar quanto dessas escolhas vem do desejo de estar naquela relação e quanto vem do medo de que ela termine.

Uma questão importante é perceber o espaço que esse medo ocupa. Quando a pessoa passa a organizar seus dias em função das reações do outro, fica muito difícil viver a relação com alguma tranquilidade. Ela(e) está ali, com o parceiro(a), mas uma parte dela(e) continua em alerta, tentando descobrir se ainda é amada(o).”

Mulher de braços cruzados segura o celular e olha para o lado, com expressão preocupada
Uma resposta que demora pode virar, na cabeça, um sinal de rejeição.

Se dizer o que pensa parece arriscado demais, o guia sobre como dizer não sem culpa pode ajudar a dar os primeiros passos. E, quando a vigilância sobre o outro vira desconfiança constante, o tema se aproxima do ciúme, que tratamos em outro texto.

Cuidar da relação ou agir pelo medo de ser deixada?

A terceira pergunta foi sobre a diferença entre cuidar da relação e agir movida pelo medo de ser deixada. Para a Lígia, a diferença está no lugar que o medo ocupa:

“Acho que a diferença está, principalmente, no lugar que o medo ocupa nas nossas escolhas.

Cuidar de uma relação envolve se importar com o outro, querer estar junto, conversar sobre o que incomoda, fazer concessões quando isso faz sentido para os dois. Existe um desejo de construir alguma coisa em comum, sem que seja necessário deixar de existir como pessoa para que a relação continue.

Quando o medo de ser deixado passa a orientar o relacionamento, as coisas podem ficar um pouco diferentes. A pessoa começa a agir para garantir que o outro não vá embora. Ela pode abrir mão do que deseja, evitar conversas difíceis ou precisar de provas constantes de que continua sendo importante.

A questão é que não temos como garantir a permanência de alguém. Por mais que cuidemos de uma relação, existe uma parte do outro que não controlamos: seus desejos, suas escolhas, o que o movimenta.

Isso pode ser bastante angustiante, principalmente para quem vive o distanciamento como uma ameaça de perda. Nesses casos, respeitar o espaço do parceiro pode ser sentido como um risco, e qualquer sinal de autonomia pode despertar insegurança.

Não se trata de deixar de precisar do outro ou de construir uma relação em que cada um cuide apenas de si. Nós precisamos dos vínculos, e é natural desejar segurança neles. A questão é poder estar em uma relação sem precisar transformar cada gesto em uma tentativa de impedir que ela termine.

Cuidar da relação é se implicar na construção desse vínculo. Agir pelo medo é sentir que precisamos fazer alguma coisa o tempo todo para não sermos deixados.”

Para facilitar a comparação, a Equipe Vida Intencional organizou as diferenças que a Lígia descreve num quadro. Ele serve para reflexão, não para diagnóstico:

Quando é cuidadoQuando é o medo de abandono que orienta
Conversar sobre o que incomodaEvitar conversas difíceis e deixar de dizer o que pensa
Fazer concessões quando fazem sentido para os doisAbrir mão do que deseja e se adaptar demais às vontades do outro
Construir algo em comum sem deixar de existir como pessoaSentir que é preciso deixar de existir como pessoa para que a relação continue
Respeitar o espaço do outroViver cada sinal de autonomia do outro como ameaça
Se implicar na construção do vínculoPrecisar de provas constantes de que continua sendo importante
Casal sentado no sofá conversando, de frente um para o outro
Cuidar da relação inclui conversar sobre o que incomoda.

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O que ajuda quem reconhece o medo de abandono em si

Por fim, perguntamos o que ajuda, na prática, quem reconhece o medo de abandono em si. A Lígia começa pelo que acontece quando o outro se afasta:

“O primeiro passo é começar a prestar atenção ao que acontece quando o outro se distancia. Em vez de tentar resolver a angústia imediatamente, vale observar o que aquela ausência desperta e quais pensamentos aparecem nesse momento.

Uma demora para responder uma mensagem é um acontecimento. A certeza de que o outro perdeu o interesse é uma interpretação que pode surgir a partir dele. Conseguir distinguir essas duas coisas não faz o sofrimento desaparecer, mas pode ajudar a não agir imediatamente a partir daquilo que se teme.

Também é importante perceber como esse medo interfere nas escolhas. Tenho deixado de dizer o que penso? Estou aceitando coisas que me fazem mal para evitar uma separação? Estou tentando controlar os movimentos do outro porque não consigo lidar com a insegurança que eles despertam em mim?

São perguntas que ajudam a deslocar o olhar. Em vez de concentrar toda a atenção no que o outro está fazendo, a pessoa começa a se aproximar daquilo que sente e dos sentidos que aquela relação tem para ela.”

Um exercício para a próxima vez que a resposta demorar

A partir dessa resposta, a Equipe Vida Intencional montou um roteiro simples. Ele não substitui a escuta de uma profissional, mas pode ajudar a separar o que aconteceu do que o medo conta:

  • Anote o acontecimento, sem interpretação: “ele ainda não respondeu”.
  • Anote a interpretação que surgiu: “ele perdeu o interesse”.
  • Observe o que essa ausência desperta em você e quais pensamentos aparecem.
  • Espere um pouco antes de agir. A ideia, como diz a Lígia, não é fazer o sofrimento desaparecer, mas não agir imediatamente a partir daquilo que se teme.

Quando procurar ajuda

Na mesma pergunta, quisemos saber quando vale procurar terapia. A Lígia respondeu:

“Quando esse sofrimento é recorrente, interfere nas relações ou começa a afetar o sono, o trabalho e a vida cotidiana, procurar terapia pode ser muito importante.

Na psicanálise, existe a possibilidade de falar sobre essas experiências e compreender como elas se relacionam com a própria história. Não é um trabalho que acontece de uma hora para outra, nem tem como objetivo fazer com que a pessoa deixe de sentir medo ou não precise mais de ninguém.

É um espaço para que aquilo que parece se repetir inevitavelmente nas relações possa ganhar outros sentidos. Aos poucos, a pessoa pode compreender melhor suas escolhas e construir outra maneira de lidar com a ausência, com a insegurança e com a possibilidade de perder alguém.

Afinal, o caminho não é encontrar uma maneira de garantir que ninguém vá embora. É poder construir relações nas quais o desejo de estar com o outro não venha acompanhado da sensação constante de que precisamos fazer alguma coisa para que ele fique. E descobrir que, mesmo quando alguém se distancia, nós não precisamos desaparecer junto com essa pessoa.”

Um cuidado importante: se, para não perder a relação, você vem aceitando humilhações, controle, ameaças ou qualquer forma de violência, procure apoio o quanto antes. A entrevista sobre relacionamento abusivo ajuda a reconhecer sinais que nem sempre são óbvios.

Onde buscar apoio no Brasil:

  • UBS (Unidade Básica de Saúde): é a principal porta de entrada do SUS, inclusive para saúde mental, segundo o Ministério da Saúde. Lá é possível começar a avaliação e ser encaminhada, se for o caso.
  • CVV, telefone 188: apoio emocional gratuito, 24 horas, para quem está em sofrimento intenso (cvv.org.br).
  • Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, gratuita e 24 horas, com orientação sobre direitos e serviços e registro de denúncias de violência (Ministério das Mulheres).
  • Polícia Militar, telefone 190: em caso de violência acontecendo agora.
  • SAMU, telefone 192: em qualquer emergência de saúde.

Perguntas frequentes

Como age uma pessoa com medo de abandono?

Pelos sinais que a Lígia Daher descreve, ela pode ficar angustiada quando a resposta demora e imaginar cenários a partir do silêncio, pedir confirmações frequentes de que é amada, ter dificuldade de ficar bem quando o outro quer fazer algo sozinho e observar qualquer mudança de comportamento. Também pode evitar dizer o que pensa, aceitar situações que a machucam e se adaptar demais às vontades do parceiro, muitas vezes acreditando que faz tudo isso por amor.

Medo de abandono é sinal de borderline?

Não necessariamente. O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) inclui, entre os sintomas possíveis do transtorno de personalidade borderline, tentar evitar um abandono real ou percebido, ao lado de relações intensas e instáveis, mudanças intensas de humor e sensação crônica de vazio, entre outros. O próprio NIMH explica que nem toda pessoa com o transtorno tem todos os sintomas e que o diagnóstico é feito por um profissional de saúde mental habilitado, a partir de uma conversa detalhada sobre os sintomas e a história pessoal e familiar. Reconhecer o medo de abandono em si não é motivo para se rotular; se ele vem junto com outros sinais intensos, vale buscar uma avaliação.

Como superar o medo de abandono?

Para a Lígia, o primeiro passo é prestar atenção ao que acontece quando o outro se distancia, em vez de tentar resolver a angústia na hora, e separar o acontecimento (uma resposta que demora) da interpretação (a certeza de que o outro perdeu o interesse). Ela lembra que a terapia não tem como objetivo fazer a pessoa deixar de sentir medo ou não precisar mais de ninguém, e sim construir outra maneira de lidar com a ausência, com a insegurança e com a possibilidade de perder alguém.

Estar com o outro sem desaparecer

O medo de abandono não é frescura nem carência. Como mostra a Lígia, ele tem história e costuma aparecer justamente nas relações que mais importam. Não dá para garantir que ninguém vá embora, mas dá para construir uma forma de estar com o outro sem precisar se anular para que ele fique. Se você se reconheceu aqui, comece observando o que a ausência desperta em você. E, se o sofrimento se repete, procure uma profissional para conversar sobre isso. Se este texto pode ajudar alguém que vive com medo de ser deixada, envie para essa pessoa.

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Leia também: Apego ansioso: sinais reais e como construir segurança, Estilos de apego: os 4 padrões que explicam como você se relaciona e Ciúmes: quando passa do limite.

Como este artigo foi feito: as respostas foram enviadas por escrito pela psicóloga Lígia Daher em 14/10/2026 e aparecem entre aspas, com o texto dela, sem alterações. A apresentação e a foto do quadro “Sobre a entrevistada” foram enviadas por ela em 15/10/2026. Os conteúdos complementares, como o quadro sobre apego, a tabela de comparação, o exercício, as orientações de onde buscar apoio e as perguntas frequentes, foram elaborados pela Equipe Vida Intencional com base nas respostas e em fontes conferidas. A versão final foi submetida à conferência da entrevistada antes da publicação. Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação psicológica.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento médico, psicológico, jurídico ou financeiro profissional.

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