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Empoderamento Feminino

Relacionamento Abusivo: Psicóloga Explica 7 Sinais Sutis de Recomeço

Relacionamento abusivo: mulher olhando o horizonte em um campo ao pôr do sol, em momento de reflexão

Nem sempre a gente percebe na hora. Às vezes é só um cansaço que não passa, uma vontade de medir cada palavra dentro de casa, uma sensação de estar pisando em ovos o tempo todo. E, quando alguém de fora pergunta se está tudo bem, a resposta automática é “está, sim”. Se algo nisso soa familiar, este texto é para você — sem pressa e sem julgamento.

Para entender como a mulher começa a perceber que vive um relacionamento abusivo — e como esse processo de “voltar para si” costuma acontecer aos poucos —, o Vida Intencional conversou com a psicóloga Mariana Mejan (CRP 06/92638), que atende exclusivamente mulheres adultas e trabalha com a Abordagem Centrada na Pessoa e uma escuta feminista.

Resposta rápida: em um relacionamento abusivo, a mulher costuma ir se silenciando aos poucos para evitar críticas e conflitos, até duvidar da própria percepção. Segundo a psicóloga Mariana Mejan, o recomeço geralmente nasce de um acúmulo de pequenos incômodos, e não de uma decisão imediata: levar a sério o que sente, conversar com alguém de confiança e buscar ajuda profissional são primeiros passos possíveis.

Se você está em perigo agora, ligue 190 (Polícia Militar). Para orientação gratuita e sigilosa, 24 horas por dia, o Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher também atende pelo WhatsApp (61) 9610-0180.

Sobre a entrevistada

Psicóloga Mariana Mejan, CRP 06/92638, entrevistada sobre relacionamento abusivo
Mariana Mejan — psicóloga clínica, CRP 06/92638.

Nas palavras dela: “Sou Mariana Mejan, psicóloga clínica (CRP 06/92638), formada em Psicologia especialização na abordagem Humanista, Centrada na Pessoa. Tenho mais de 16 anos de experiência e formação avançada no atendimento a mulheres.”

“Meu trabalho é orientado pela Abordagem Centrada na Pessoa e por uma escuta feminista. Isso significa acolher cada mulher em sua história, sem julgamentos, e compreender também como o machismo e as expectativas impostas às mulheres podem afetar sua saúde emocional, seus relacionamentos e a forma como se enxergam. Acredito em um espaço terapêutico no qual ela possa se ouvir, reconhecer suas necessidades e encontrar seus próprios caminhos. Atualmente, atendo mulheres adultas exclusivamente online.”

Conheça o trabalho dela em marianamejanpsicologa.com.br.

O que é um relacionamento abusivo, em poucas palavras

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) define a violência praticada por parceiro íntimo como o comportamento de um parceiro ou ex-parceiro que causa dano físico, sexual ou psicológico — incluindo agressão física, coerção sexual, abuso psicológico e comportamentos de controle (fonte: OPAS/OMS). Ou seja: um relacionamento abusivo não se resume a agressão física. O controle, a desvalorização constante e o medo da reação do outro também fazem parte do quadro.

A entrevista com Mariana Mejan parte de um conto que ela escreveu sobre esse tema — uma história fictícia sobre uma mulher que percebe a relação tóxica em que vive e começa a se reconstruir. As respostas abaixo trazem o olhar clínico dela sobre esse processo.

Como começa o recomeço dentro de um relacionamento abusivo

A primeira pergunta foi sobre o que costuma disparar esse “início silencioso” do renascimento emocional — se geralmente é um evento específico ou um acúmulo de pequenas coisas.

“Em relações abusivas, a mulher pode ir se silenciando aos poucos para evitar críticas, conflitos ou reações imprevisíveis. Quando seus sentimentos são constantemente desvalorizados, ela pode começar a duvidar da própria percepção e a se perguntar se está exagerando. Por isso, o início do renascimento emocional geralmente nasce de um acúmulo, embora uma cena cotidiana possa fazê-la perceber o que vem vivendo — como notar que prende a respiração dentro da própria casa.”

Mariana faz uma ressalva importante: “Psicologicamente, esse momento não significa que ela saiba o que fazer e que já esteja pronta para sair da relação. Significa que começa a dar atenção ao próprio desconforto e a reconhecer que algo naquela relação a machuca.”

Isso ajuda a tirar um peso comum de quem vive um relacionamento abusivo, e de quem está ao redor: perceber não é o mesmo que ter todas as respostas. Reconhecer o incômodo já é um movimento.

Como perceber que você está “voltando para si”

Como o processo é sutil, perguntamos como a mulher pode reconhecer que já está nesse movimento de sair, por dentro, de um relacionamento abusivo.

“Ela pode perceber esse movimento em gestos pequenos e às vezes não intencionais, mas talvez pelo desgaste, cansaço, sobrecarga emocional e questionamentos a partir das situações abusadoras, e então, pode, por exemplo, passar a se perguntar: ‘será minha culpa?’ antes de pensar em como o outro vai reagir; quando reconhece que uma crítica a feriu, em vez de se convencer de que ela estava realmente errada ou simplesmente ignorando seu próprio sentimento; ou quando sente vontade de retomar uma amizade, um interesse, uma escolha sua.”

Ela completa: “Em relações abusivas, a mulher muitas vezes aprende a desconfiar da própria percepção. Por isso, voltar para si pode começar justamente quando ela passa a levar a sério o que sente. Esse processo não exige certezas imediatas nem acontece sempre no mesmo ritmo, ou seja, em alguns momentos e situações, ela ainda pode não perceber ou reconhecer seus próprios sentimentos. Voltar para si é um processo não linear e que pode até mesmo trazer dúvidas e confundir essa mulher.”

Relacionamento abusivo e sobrecarga: por que o cuidado vira armadilha

Perguntamos se a sobrecarga de cuidar de tudo e de todos costuma atrasar esse processo. A resposta de Mariana conecta o relacionamento abusivo a algo maior do que a relação a dois.

“Vivemos em uma sociedade patriarcal, em que ainda se espera que mulheres cuidem, cedam e assumam a responsabilidade pelo bem-estar de todos, enquanto suas próprias necessidades ficam em segundo plano. O machismo reforça relações abusivas quando faz o controle parecer cuidado e leva a mulher a acreditar que cabe a ela compreender o parceiro, evitar conflitos e fazer a relação dar certo, mesmo quando está sendo machucada.”

Segundo ela, nesse cenário a mulher acaba colocada no papel de cuidadora, o que “envolve as tarefas de casa, os cuidados com os filhos, dele mesmo e ainda ela dar conta da manutenção da relação de acordo com a vontade desse homem, anulando qualquer sentimento dessa mulher”.

E o efeito é duplo: “Essa sobrecarga ocupa seu tempo e sua energia, mas também dificulta que ela escute o próprio sofrimento e perceba o quanto está se apagando. Voltar para si pode começar quando ela reconhece que cuidar de uma relação não deveria ser somente sua responsabilidade e exigir o abandono de si mesma, porque muitas vezes pode vir acompanhado de culpa, constrangimento e falta de apoio.”

Se esse peso de “dar conta de tudo” é familiar, vale ler também nosso texto sobre carga mental invisível.

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7 sinais sutis de que o processo já começou

Em um relacionamento abusivo, a mudança costuma aparecer primeiro nos detalhes. Reunimos, a partir das respostas de Mariana Mejan, os pequenos sinais do dia a dia que ela descreve — muitos aparecem antes mesmo de a mulher conseguir dar nome ao relacionamento abusivo que vive:

  1. Já não ri com a mesma liberdade — e percebe isso.
  2. Sente alívio quando está longe do parceiro.
  3. Percebe que ensaia cada palavra para evitar uma reação dele.
  4. Reconhece que uma crítica a feriu, em vez de se convencer de que estava errada.
  5. Sente vontade de procurar uma amiga, retomar algo de que gostava ou ficar um momento em silêncio para se ouvir.
  6. Toma uma decisão sem buscar a aprovação dele e passa a confiar um pouco mais na própria percepção.
  7. Começa a pensar em estudos, trabalho e autonomia financeira — e a imaginar como seria a vida fora da relação.

Nas palavras de Mariana: “Talvez ela ainda não saiba como será sua vida fora da relação, mas começa a imaginá-la. É um sinal sutil de que está voltando a se enxergar como uma mulher inteira. Esses sinais, isoladamente, não contam toda a história. Mas podem indicar que uma parte dela começa a perceber o espaço que perdeu na relação — e a desejar recuperá-lo.”

O primeiro passo prático para quem sente que “ainda não chegou lá”

Mariana é honesta sobre a dificuldade da pergunta: “Essa resposta é difícil porque cada mulher é única. Cada relação abusiva tem sua história, e o controle, a violência e as marcas, traumas, que ela deixa podem assumir formas diferentes.”

“Para quem sente que ‘ainda não chegou lá’, um primeiro passo possível é conversar com alguém de confiança sobre o que tem vivido, mesmo que ainda não consiga chamar aquilo de abuso. Ser ouvida sem julgamento pode ajudá-la a confiar novamente na própria percepção.”

Ela acrescenta: “Buscar informação e conhecer o feminismo também ajuda a entender que a cobrança para ceder, cuidar de todos e manter a relação a qualquer custo não é uma falha individual: ela é reforçada pela sociedade. E vale buscar ajuda profissional. Uma terapia atenta às experiências das mulheres pode acolher a confusão e a culpa sem pressionar por uma decisão, ajudar a reconhecer os efeitos da violência e abrir espaço para que ela pense, com segurança, em seus desejos, sua rede de apoio e sua autonomia.”

Para quem vive um relacionamento abusivo, montar uma rede de pessoas com quem possa contar é parte desse caminho — falamos disso com mais detalhe em como construir uma rede de apoio.

Quando procurar ajuda em um relacionamento abusivo

Não é preciso ter certeza de que se trata de um relacionamento abusivo para pedir ajuda. Alguns caminhos concretos:

  • Em situação de perigo imediato: ligue 190 (Polícia Militar).
  • Para orientação e informação: o Ligue 180 é gratuito, funciona 24 horas por dia, todos os dias, e também atende pelo WhatsApp (61) 9610-0180. O serviço orienta sobre direitos, indica a rede de atendimento mais próxima e encaminha denúncias.
  • Para cuidar da saúde emocional: acompanhamento com psicóloga ou psicólogo, de preferência com experiência no atendimento a mulheres, ajuda a organizar o que está sendo vivido no seu ritmo.

Erros comuns ao lidar com um relacionamento abusivo

  • Achar que precisa de uma prova definitiva antes de falar com alguém. Como Mariana lembra, conversar mesmo sem conseguir chamar aquilo de abuso já é um passo possível.
  • Tratar tudo como falha pessoal. A cobrança para ceder e manter a relação a qualquer custo é reforçada socialmente — não é defeito seu.
  • Esperar um “estalo” que resolva tudo de uma vez. O processo de voltar para si é não linear, com idas e vindas.
  • Julgar quem ainda não saiu. Perceber o incômodo não significa estar pronta para decidir — e pressão costuma aumentar a culpa, não a clareza.
  • Carregar tudo sozinha. Rede de apoio e ajuda profissional fazem diferença, inclusive para pensar em segurança.

Colocar limites é parte do caminho, mas não é algo que se faz de uma vez. Se o tema te interessa, leia também sobre limites emocionais e sobre limites saudáveis no namoro.

Resumo prático desta entrevista sobre relacionamento abusivo

  • O recomeço costuma nascer de um acúmulo, não de uma decisão repentina.
  • Perceber o desconforto não significa estar pronta para sair — e está tudo bem.
  • Os sinais são sutis: alívio longe do parceiro, ensaiar palavras, vontade de retomar amizades e interesses.
  • A sobrecarga de cuidar de todos dificulta ouvir o próprio sofrimento.
  • Primeiro passo possível: conversar com alguém de confiança, buscar informação e apoio profissional.

Perguntas frequentes

O que caracteriza um relacionamento abusivo?
Segundo a OPAS/OMS, a violência por parceiro íntimo inclui não só agressão física e coerção sexual, mas também abuso psicológico e comportamentos de controle. Desvalorização constante dos sentimentos e medo da reação do outro são sinais de alerta.

Relacionamento abusivo é só quando há agressão física?
Não. O abuso psicológico e o controle também fazem parte da definição. Muitas vezes, como descreve Mariana Mejan, a mulher vai se silenciando aos poucos para evitar críticas e conflitos.

Como saber se estou em um relacionamento abusivo se eu mesma duvido do que sinto?
A dúvida sobre a própria percepção é, em si, um efeito comum dessas relações. Levar a sério o que sente e conversar com alguém de confiança ou com uma profissional ajuda a organizar o que está acontecendo.

Perceber o problema significa que preciso sair agora?
Não necessariamente. Para Mariana, esse momento significa começar a dar atenção ao próprio desconforto — não saber exatamente o que fazer. Uma terapia atenta às experiências das mulheres pode acolher a confusão sem pressionar por uma decisão.

Onde buscar ajuda gratuita em caso de relacionamento abusivo?
O Ligue 180 é gratuito e funciona 24 horas, inclusive pelo WhatsApp (61) 9610-0180. Em emergência, ligue 190.

A sobrecarga em casa tem relação com o relacionamento abusivo?
Pode ter. Mariana explica que, quando se espera que a mulher cuide de tudo e de todos, o controle pode parecer cuidado, e a sobrecarga dificulta que ela perceba o quanto está se apagando.

Conclusão

Sair de um relacionamento abusivo raramente começa com uma grande decisão. Como mostra a conversa com Mariana Mejan, costuma começar com algo menor e mais silencioso: levar a sério o que você sente. Se você se reconheceu em algum trecho, não precisa resolver tudo hoje — mas pode dar um primeiro passo, como conversar com alguém em quem confia ou procurar ajuda profissional. E, se estiver em perigo, ligue 190.

Leia também a entrevista com a psicóloga Luciana Perfetto sobre depressão em mulheres 40+ e nosso guia sobre autoestima baixa.

Prefere no formato rápido? Veja o Web Story sobre os sinais sutis de recomeço em um relacionamento abusivo →

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento médico, psicológico, jurídico ou financeiro profissional.

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