Comparação nas Redes Sociais e Autoestima: Por Que Pesa Tanto nas Mulheres

Você abre o celular para ver uma mensagem e, dez minutos depois, está rolando fotos de corpos, casas, viagens e carreiras que parecem perfeitas. Fecha o aplicativo com a sensação de que a sua vida ficou pequena. Se isso acontece com você, saiba que não é frescura nem falta de força de vontade: a comparação é um processo humano antigo, que as redes sociais amplificaram.
Para entender a relação entre comparação nas redes sociais e autoestima, e por que ela pesa tanto nas mulheres, o Vida Intencional entrevistou a psicóloga Alessandra Alle Licco, que atende em Campinas (SP) e on-line e já escreveu sobre o tema no blog dela. Ela respondeu por escrito a quatro perguntas.
Resposta rápida: a comparação nas redes sociais mexe com a autoestima porque o ser humano busca aceitação desde a infância e as redes mostram padrões idealizados o tempo todo: corpos, rotinas, relacionamentos e carreiras. Segundo a psicóloga Alessandra Alle Licco, o fim de ano costuma intensificar esse peso. Os sinais de alerta incluem autocrítica excessiva, isolamento e dificuldade de celebrar as próprias conquistas.

Sobre a entrevistada: Alessandra Alle Licco (CRP 06/8855-1) é psicóloga, neuropsicóloga, neurorreabilitadora e psicóloga forense, com especialização em Psicanálise pela FAAP. Atende crianças, adolescentes e adultos, presencialmente em Campinas (SP) e on-line. Site: psicologaemcampinas.com.br · Instagram: @alessandralicco_psicologa
Por que a comparação nas redes sociais mexe tanto com a autoestima das mulheres
A primeira pergunta foi justamente essa: por que a comparação nas redes sociais mexe tanto com a autoestima das mulheres. A Alessandra começa pela infância e pela forma como meninas e meninos são educados:
“O ser humano desde que nasce, copia modelos para se posicionar no mundo que vive. As crianças buscam nos pais ou cuidadores próximos, modelos para ter como referência, diante das situações que vivem, pois não tem uma consciência formada. Posteriormente na adolescência, buscam a individualização dos papeis copiados dos pais. Assim sendo, os amigos, posteriormente que passam pelas mesmas angustias das transformações do corpo, pensamentos e sentimentos, tornam-se referência para desenvolverem uma espécie de código corporal e comportamental, assim sendo agem de forma muito semelhante entre si, no que diz respeito aos comportamentos sociais e desenvolvendo padrões próprios daquele grupo. Portanto todo ser humano busca uma aceitação social, uma adequação.
A diferença na educação das crianças do sexo feminino e masculino, se apresenta de modo diferenciado. A menina tem que ter um comportamento mais delicado e adequado; os brinquedos das meninas na maioria das vezes estão relacionados a rotinas domesticas, beleza das bonecas, roupinhas e maquiagem. Os brinquedos dos meninos são muito diferentes: são carrinhos, o que estimula a independência de locomoção; personagens de heróis; ferramentas de consertar as coisas, atribuindo o “poder” de consertar as coisas” de modo inconsciente. No que tange a educação os homens são educados para serem fortes, provedores.
As mulheres por anos não puderam ter uma expressão particular, pois a sociedade não permitia, por exemplo: não tinham direito a votar, tampouco a abrir uma conta bancaria sem consentimento do esposo. Essas conquistas são muito recentes.
As mulheres por vezes desenvolvem comportamentos muito rivalistas, elas competem, querem ser vistas e se destacar, são relatos das próprias mulheres.
As redes sociais podem intensificar padrões já recorrentes e já existentes tais como: corpos aparentemente perfeitos; rotinas produtivas; relacionamentos felizes; maternidades idealizadas; carreiras em ascensão. Portanto a comparação nas redes sociais não deixa de ser uma forma de buscar aceitação e ter uma ascensão diante de outras mulheres, e perante a sociedade, permitindo assim de uma forma inconsciente de serem percebidas. Antes da internet existiam a comparação de através das modelos de capa de revista, das atrizes de televisão.
A comparação nas redes sociais e internet de modo geral, podem causar impactos significativos em alguns pontos importantes: Exposição a padrões idealizados, onde tudo na rede social parece ser perfeito; Pressão social; Impacto emocional; Busca por validação; Construção da Autoimagem.
A construção de um modelo idealizado pode levar a sentimentos de inadequação, bem como o uso elevado de redes sociais ou outros tipos de plataformas, podendo gerar um comportamento vicioso de comparação; compulsão por compras de produtos que prometem o estereótipo perfeito. Portanto esse ciclo pode acarretar em possíveis diagnósticos de depressão, ansiedade e outros agravamentos. Estaria portanto comprometendo a saúde mental de muitas mulheres. Isto denota uma dependência emocional importante, tornando-se um ciclo prejudicial. Do ponto de vista da psicologia, esse comportamento pode promover uma distorção da realidade, bem como no que se refere a autoestima das mulheres.
Devemos sim promover mais atenção e fortalecimento de autoaceitação, autocuidado e cuidados com a saúde mental de modo mais habitual.”
Se você se reconhece nessa busca constante por validação, o nosso guia sobre autoestima e o texto sobre autoestima baixa ajudam a olhar para isso com mais calma.
O que a pesquisa diz sobre comparação nas redes
A ideia de que avaliamos a nós mesmos olhando para os outros é antiga na psicologia: o psicólogo Leon Festinger a descreveu em 1954, na teoria da comparação social. As redes só multiplicaram as oportunidades de comparação.
Uma meta-análise publicada em 2023 na revista Media Psychology reuniu 48 artigos experimentais, com 7.679 participantes. Ver nas redes pessoas que parecem estar “acima” de nós teve efeito negativo pequeno, mas consistente, na forma como as pessoas se avaliam e se sentem. O maior efeito apareceu na imagem corporal. Depois vieram a autoestima, a saúde mental e o bem-estar.
Um experimento menor, de 2024, com 49 universitários no Reino Unido (43 mulheres), encontrou queda na satisfação com o corpo depois de ver imagens “idealizadas” no Instagram, mas não na autoestima geral. Os próprios autores lembram que a amostra é pequena. Resumo da Equipe Vida Intencional; as fontes estão no fim do texto.
Por que dezembro e o fim de ano pesam mais
No blog dela, a Alessandra escreveu que a comparação nas redes aumenta em dezembro. Perguntamos o que torna algumas épocas do ano mais pesadas:
“Tal comportamento de comparação, que geralmente ocorrem principalmente nos períodos de final de ano, podem estar associados a diversas situações. Esse e um período que se destaca por festividades, ritos sociais e confraternizações. E muito importante lembrar que não se pode deixar de lado, memorias, a tal retrospectiva do ano que está se findando e novas expectativas sociais de felicidade, que pode intensificar emoções e alguns sentimentos negativos e de frustração por não ter obtido sucesso nos votos realizados no ano anterior ou por nada ter mudado na própria vida. Neste período de final de ano pode ser caracterizado por sensações de sobrecarga, pressão por intensas celebrações e confraternizações, bem como a comparação das metas não alcançadas, insucessos. Portanto, a pressão estética e a imposição de padrões de beleza e elegância “irreais” das redes sociais, somam como uma comparação constante e além do normal, bem como das mudanças estéticas. Época que a pessoa busca estar em forma para festividades, roupas novas para os eventos sociais.
Tal posicionamento de pressão social, sob o próprio estereótipo, que deve estar perfeito, para que ninguém se posicione de modo negativo, pode ser algo padronizado de modo até mesmo obsessivo para ser alcançado, gerando uma sobrecarga emocional e causando frustrações emocionais.
Portanto podemos entender, que este período do ano, pode se apresentar como um momento muito pesado pelo nível de exigência emocional, que de forma velada acaba sendo-lhe atribuída.”
O texto que deu origem a essa pergunta está no blog dela: “Por que a comparação nas redes sociais aumenta tanto em dezembro?”.

Sinais de que a comparação já está fazendo mal
Comparar-se é humano. Então perguntamos quais sinais mostram que a comparação já passou do ponto:
“Embora a comparação social possa ser um processo natural do ser humano, até mesmo como um modo de busca pessoal de inspiração, incentivo para uma meta pessoal de vida, compreende-se que isto pode soar como algo positivo, porem quando se torna um processo de exigência de forma excessiva, traz prejuízos para a saúde mental.
Sinais que podem representar com grau de relevância, nas comparações sociais, podendo trazer prejuízos emocionais e soando como um sinal de alerta, podem ser: Diminuição da satisfação pessoal: onde as conquistas e ou aparência podem sempre parecer insuficientes, numa comparação constate com o outro, ou seja seria uma “comparação idealizada”; Isolamento social: quando numa comparação, não for atingido o ideal construído, faz com que exista um afastamento de interações sociais reais, acrescido de sentimento de não “estar à altura” daquele grupo inserido, em que a vergonha prevalece e leve a uma reclusão, impedindo conexões significativas e prazerosas, promovendo um mecanismo de defesa falho; Sentimentos persistentes de inveja e ressentimento: a felicidade alheia se apresenta como desconfortável; Autocrítica excessiva associada ao perfeccionismo: sentimento de insuficiência, buscando assim padrões irreais e inatingíveis; Ansiedade e depressão: a comparação constante pode ser um gatilho para um humor negativo e de futuras preocupações excessivas; Dificuldade em celebrar as próprias vitórias: o próprio sucesso nunca será suficiente, onde não consegue observar as significâncias das próprias conquistas e as próprias conquistas são “irrelevantes” perante a dos outros; Problemas com a própria imagem corporal: quando existe uma busca incessante por um padrão de corpo “perfeito” (perante padrões externos), pode gerar dismorfia (autopercepção de deformidade), sentimento de insatisfação.”
Em resumo, os sinais que a Alessandra cita são:
- diminuição da satisfação pessoal;
- isolamento social;
- sentimentos persistentes de inveja e ressentimento;
- autocrítica excessiva associada ao perfeccionismo;
- ansiedade e depressão;
- dificuldade em celebrar as próprias vitórias;
- problemas com a própria imagem corporal.
Se a inveja aparece com frequência, vale ler também o nosso texto sobre inveja, que ajuda a entender esse sentimento sem culpa.

O que ajuda a usar as redes de um jeito mais saudável
Por fim, perguntamos o que ajuda, na prática, a usar as redes de um jeito mais saudável:
“E extremamente importante em percepção de tais sinais e padrões, que possam evoluir para um desconforto emocional, a busca de: suporte profissional para auxiliar na busca de auto satisfação e autoaceitação; limitar tempo de tela e consumo de conteúdo negativo; seguir perfis que promovam diversidade, empoderamento e aceitação corporal; pratica de autocuidado e focar em atividades que possam trazer bem-estar e propósito; buscar de apoio em comunidades de saúde mental e bem-estar, com profissionais credenciados.
Aproveitar a vida, viver de modo satisfatório, nem sempre sorrindo, mas valorizando o que consegue realizar as coisas que nos cerca. Nem sempre o que a outra pessoa vive pode ser real, e pode se ter uma certeza de que não e sempre presente, todos tem variações no seu cotidiano, e o que está vivendo no presente deve, ser um estimulo para novas buscas.”
Quer um passo a passo? Esta entrevista explica por que a comparação pesa e como reconhecer os sinais. Para colocar a mudança em prática, o nosso detox de comparação nas redes sociais traz um roteiro por etapas. Também ajudam o texto sobre minimalismo digital e as dicas para reduzir as notificações do celular.
Perguntas para pensar depois de rolar o feed
A partir das respostas da Alessandra, a Equipe Vida Intencional reuniu algumas perguntas para reflexão. Elas não substituem a ajuda de uma profissional, mas podem ajudar a perceber o que a comparação está fazendo com você:
- Como eu me sinto agora, depois de rolar o feed, comparado a antes de abrir o aplicativo?
- Com quem eu mais me comparo? Eu conheço a vida real dessa pessoa ou só o que ela mostra?
- Que conquista minha eu deixei de celebrar porque a de outra pessoa pareceu maior?
- Quais perfis eu sigo que me fazem bem, e quais me deixam pior?
Quando procurar ajuda
Comparar-se de vez em quando faz parte da vida. Vale procurar uma psicóloga quando a comparação vira autocrítica constante, quando você começa a se afastar das pessoas por vergonha, quando a relação com o próprio corpo fica muito difícil ou quando aparecem sinais de ansiedade e tristeza que não passam. O nosso guia sobre ansiedade ajuda a reconhecer os sinais.
Onde buscar apoio no Brasil:
- UBS (Unidade Básica de Saúde): é a principal porta de entrada do SUS, inclusive para saúde mental, segundo o Ministério da Saúde. Lá é possível começar a avaliação e ser encaminhada, se for o caso.
- CVV, telefone 188: apoio emocional gratuito, 24 horas, para quem está em sofrimento intenso (cvv.org.br).
- SAMU, telefone 192: em qualquer emergência.
Perguntas frequentes
Qual é o impacto das redes sociais na autoestima?
Segundo a psicóloga Alessandra Alle Licco, as redes intensificam padrões que já existiam, como corpos aparentemente perfeitos, rotinas produtivas e maternidades idealizadas. Isso pode gerar sentimentos de inadequação e um ciclo de comparação. Uma meta-análise de 2023 com 48 estudos encontrou efeito negativo pequeno, mas consistente, de ver pessoas “acima” de nós nas redes, maior na imagem corporal.
Como a comparação afeta a autoestima?
Quando vira exigência excessiva, a comparação faz as próprias conquistas parecerem insuficientes. Entre os sinais que a Alessandra cita estão a autocrítica excessiva, o isolamento social, a inveja persistente e a dificuldade de celebrar as próprias vitórias.
O que é comparação nas redes sociais?
É o hábito de avaliar a própria vida, o corpo ou as conquistas a partir do que outras pessoas mostram nas redes. A psicologia estuda a comparação social desde a teoria de Leon Festinger, de 1954. Para a Alessandra, nas redes ela também é uma forma de buscar aceitação, muitas vezes de modo inconsciente.
Por que a comparação piora no fim de ano?
Para a Alessandra, o fim de ano junta festas, confraternizações, retrospectivas e expectativas sociais de felicidade. Isso pode intensificar a frustração com metas não alcançadas e a pressão estética, o que torna o período emocionalmente mais pesado.
Você não precisa competir com um feed
A comparação nas redes sociais não é sinal de fraqueza: ela nasce de uma necessidade humana de pertencer e foi amplificada por telas que mostram só os melhores recortes da vida dos outros. Como lembra a Alessandra, nem sempre o que a outra pessoa vive é real, e todo mundo tem variações no cotidiano. Se a comparação tem tirado a sua paz, observar os sinais, ajustar o que você consome e, se preciso, buscar ajuda profissional são passos possíveis. Se este texto pode ajudar alguém que vive se comparando, envie para essa pessoa.
Leia também: Detox de comparação nas redes sociais: guia prático passo a passo, o nosso guia sobre autoestima e o texto sobre inveja.
Fontes consultadas pela Equipe Vida Intencional (19/10/2026):
FESTINGER, Leon. A theory of social comparison processes. Human Relations, v. 7, n. 2, p. 117-140, 1954. doi.org/10.1177/001872675400700202
McCOMB, Carly A.; VANMAN, Eric J.; TOBIN, Stephanie J. A meta-analysis of the effects of social media exposure to upward comparison targets on self-evaluations and emotions. Media Psychology, v. 26, n. 5, p. 612-635, 2023. doi.org/10.1080/15213269.2023.2180647
TAYLOR, Jacqui; ARMES, Georgina. Social comparison on Instagram, and its relationship with self-esteem and body-esteem. Discover Psychology, v. 4, art. 126, 2024. doi.org/10.1007/s44202-024-00241-3
Como este artigo foi feito: as respostas foram enviadas por escrito pela psicóloga Alessandra Alle Licco em 19/10/2026 e aparecem entre aspas, com o texto dela. A foto também foi enviada por ela. O quadro “Sobre a entrevistada” foi montado pela Equipe Vida Intencional a partir da assinatura enviada por ela e do site dela, conferido em 19/10/2026; o registro profissional foi informado por ela, no formato que ela pediu, e conferido no Cadastro Nacional de Psicólogas(os) do Conselho Federal de Psicologia. As respostas da entrevistada foram preservadas e os conteúdos complementares, como o quadro sobre a pesquisa, o resumo dos sinais, as perguntas para reflexão e as perguntas frequentes, foram elaborados pela Equipe Vida Intencional. A versão final foi submetida à conferência da entrevistada, que aprovou a publicação em 20/10/2026. Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação psicológica.
